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Gigliola Mendes, Homenagem a Luisa Muraro e Lia Cigarini: Duas Vidas que Encarnam o Pensamento da Experiência

20 Luglio 2026

Quando atravessamos o portal da Libreria delle Donne di Milano pela primeira vez, não sabemos exatamente o que nos espera. Eu, pesquisadora brasileira, doutoranda em filosofia, cheguei àquele espaço histórico carregada de expectativas — e, confesso, ainda carregava minha percepção colonizada, que me fazia imaginar as filósofas italianas como figuras superiores, sisudas, distantes, inalcançáveis. Que tolice! O feminismo da diferença, que eu tanto admirava nos textos, estava ali, vivo, pulsante, e se apresentou a mim através de duas mulheres extraordinárias: Luisa Muraro e Lia Cigarini. Duas maneiras de ser, duas maneiras de ensinar, duas maneiras de habitar o mundo e a política com o corpo inteiro.

Luisa Muraro: a generosidade que se concretiza no encontro e nas palavras

Luisa Muraro tornou-se uma referência para mim quando compreendi que não me bastava mais saber o que Gramsci ou os filósofos contemporâneos diziam sobre as mulheres, como havia pesquisado em meu Mestrado e em parte do meu Doutorado. Eu queria ouvir as mulheres falarem por si mesmas. E quando encontrei seus escritos, fui tomada por um espanto fundamental: a liberdade com que ela escreve, a segurança com que fala a partir de si mesma, a originalidade de seu pensamento encarnado.

Luisa compreendeu, junto ao coletivo de mulheres com quem estabeleceu uma relação de confiança, que já não podia mais “pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros”. Precisava refletir sobre as coisas por si mesma e tentar compreendê-las. E foi isso que ela fez com uma generosidade que desmonta qualquer imagem da filósofa inacessível.

Lembro-me como se fosse hoje: era um dia festivo na Libreria. Fui convidada de última hora e, para minha surpresa, uma das primeiras pessoas que avistei foi Luisa. Meu coração acelerou. Mas ela foi imediatamente simpática, incluiu-me em sua conversa, apresentou-me a seu neto e me ofereceu algo semelhante a um croquete. Em poucos segundos, desconstruiu toda a imagem que eu havia construído em minha imaginação ainda colonizada. Mostrou-me que era gente como a gente!

Depois, em nosso encontro mais marcante — uma conversa longa, regada a vinho e aperitivos, num cantinho da Libreria — Luisa fez o que as grandes educadoras sabem fazer: percebeu minhas inseguranças, meu medo de ser eu mesma, minha dificuldade em afirmar minha própria existência filosófica. E, como a hábil educadora que foi, dedicou-se a cuidar de minha autoestima.” Por que você ainda implora por tanta aprovação externa?”, questionou-me. “Silenciando o que parte de você mesma?”

Foi então que me apresentou Simone Weil e a importância do enraizamento como pré-requisito para a transformação histórica da realidade. Transformar o fora com aquilo que de fato nos transformou. Uma verdade vivida, que vem do coração e pulsa na carne.

Luisa convidou-me a habitar uma perspectiva epistemológica outra: partir de mim mesma em direção a uma nova ética. “O feminismo não é apenas uma luta contra as discriminações”, escreveu-me depois, por e-mail, “é também e sobretudo a autodescoberta, o desejo de existir sendo você mesma, e a descoberta de que o caminho para a sua autorrealização passa por outras mulheres.” E completou: “As mulheres são a humanidade, somos todas e cada uma de nós o gênero humano de sexo feminino, aquele que dá vida a toda a humanidade. O meu convite é para você não continuar a olhar para fora de si, mas para se sentir e dizer a si mesma: é sobre mim, será que me interessa?”

Este é o método de Luisa: uma pedagogia da rebeldia, do questionamento, da autonomia, do protagonismo. Uma pedagogia que se valida, via reconhecimento, por meio da comunidade de mulheres e da autoridade advinda da genealogia feminina.

Lia Cigarini: A Política que se Ensina pelo Silêncio do Corpo

Conheci Lia Cigarini no mesmo dia em que conheci Luisa. Mas, ao contrário da exuberância generosa de Luisa, Lia era contida, silenciosa. Seu corpo-modo de ser já me revelou os limites que ela buscava deixar claros: nenhum abraço, nenhum beijo, nenhuma fotografia. Num primeiro olhar, poder-se-ia interpretar como antipatia. Que engano! Com o tempo, descobri que Lia era reservada com todas as pessoas, mas sua principal característica era ensinar — e cativar — pelo exemplo.

A vida de Lia é a própria história do feminismo italiano. Ela foi “testemunha e protagonista do movimento das mulheres desde o fim dos anos sessenta”. Filha de um militante comunista, secretária da federação juvenil do PCI, ela trazia em si os encontros e desencontros entre comunismo e feminismo. Era o elo vivo entre duas culturas políticas das mulheres na Itália.

Lia materializava em seu corpo o que as feministas da diferença aprenderam com Simone Weil e Clarice Lispector. Ela vivia com todo o seu corpo a verdade de sua luta. Era o próprio enraizamento de Simone Weil. Por isso, seu lema — que ela me disse diretamente, em pelo menos duas ocasiões — era “non credere di avere dei diritti”. Uma jurista que não acreditava imediatamente nas leis, que sabia que estas só existem de fato quando a realidade é transformada.

De Clarice Lispector, Lia apreendeu que “o mundo inteiro terá que se transformar para que eu seja incluída”. E que essa transformação não pode ser terceirizada: “É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto.” Eu aprendi com Lia principalmente pela observação. Via sua autoridade imposta pelo corpo-olhar, por suas mãos segurando com convicção o cigarro, por sua voz grave, por seus posicionamentos firmes que funcionavam como “votos de Minerva” nos impasses da Libreria. E, em especial, por sua presença constante e cotidiana.

Lia doava-se aos diversos coletivos, mantendo-os vivos e mantendo-se viva na luta. Era o esteio do grupo. Era autoridade legítima, no sentido feminista. Era sensatez. Era ponto de equilíbrio quando tudo se agita excessivamente. Era uma defensora da política, sempre trazendo o tema à tona. Era ainda força utópica, que não permitia desistir da criação constante de nova realidade, da possibilidade sempre viva de “un cambio di civiltà”.

No último mês em que frequentei a Libreria, como se finalmente estivesse reconhecendo meu empenho, Lia sentiu-se mais à vontade e me concedeu uma breve entrevista. Mas mesmo antes disso, eu já havia compreendido: com ela, o aprendizado se dava pelo exemplo, pela experiência coletiva, pela presença.

Duas Vidas, um Método

Luisa e Lia: duas maneiras de ser feminista, duas maneiras de encarnar o pensamento da diferença. Luisa com sua palavra generosa que acolhe e impulsiona; Lia com seu silêncio eloquente que ensina pelo exemplo. Juntas, elas personificam o método do feminismo da diferença: um método que é, antes de tudo, relacional.

Na Libreria e em Diotima, circulava autoridade feminina. Cada mulher dava valor ao que conquistou ao longo dos anos, aos seus projetos futuros, ao que pensou e desejou. E prestava atenção ao que as outras diziam, aos seus desejos, às suas histórias. Foi isso que Luisa e Lia me ensinaram: a importância de partir de si mesma, de confiar na própria experiência, de construir as próprias mediações, de fazer circular as próprias ideias — grávidas de prática política coletiva — em comunidades de mulheres.

Vi em seus corpos maduros a materialização de todos os conceitos que criaram e sistematizaram. Vi o feminismo da diferença em ato. Vi seu projeto político utópico e realista. Vi seu método revolucionário. E isso vai me emocionar, me inspirar e me transformar sempre.

A gratidão desde o Brasil

A Luisa, agradeço por ter me adotado como neta, por suas broncas amorosas, por seus e-mails que me chamavam de volta ao caminho, por me ensinar que o feminismo é algo em constante construção, que requer envolvimento pessoal, posicionamento e autotransformação.

A Lia, agradeço por seu exemplo silencioso e potente, por me ensinar que a política se faz com o corpo inteiro, que a autoridade feminina não precisa de grandes gestos, que a presença constante e cotidiana é já uma forma de militância.

A ambas, agradeço por terem me mostrado — em seus corpos, em suas palavras, em seus silêncios — que o caminho para a autorrealização passa por outras mulheres. Que somos a humanidade. Que partir de si mesma é o único caminho possível para transformar o mundo. E que o feminismo, bem vivido, é uma festa. Com boa comida, vinho, risadas e, às vezes, broncas de avó. Mas sempre com a certeza de que estamos juntas, criando realidade, política, relações, mundos outros.

Grazie, Luisa. Grazie, Lia.

Que a sua autoridade feminina continue a circular, a inspirar, a transformar.

Que o seu exemplo continue a ensinar que o pensamento da experiência é, afinal, a única filosofia que vale a pena ser vivida.